90 anos do conceito de estresse: o artigo de 1936 que mudou a forma de ver a tensão
Publicado em 20/10/2026

A palavra estresse está tão presente no vocabulário que parece ter existido sempre. Mas o sentido que ela tem para a saúde, de uma resposta do organismo a pressões de todo tipo, tem data de nascimento científica. Em 4 de julho de 1936, o médico Hans Selye publicou na revista britânica Nature uma nota de uma página que se tornaria o ponto de partida da história do conceito de estresse. Em 2026, o texto completa 90 anos.
O pesquisador e o experimento
Selye nasceu em Viena, em 1907, e fez carreira no Canadá, onde trabalhava no departamento de bioquímica da Universidade McGill, em Montreal, quando escreveu o artigo. Ele investigava hormônios em ratos de laboratório e percebeu algo curioso: animais submetidos a situações muito diferentes, como frio intenso, lesões cirúrgicas, exercício excessivo ou doses altas de substâncias diversas, desenvolviam um conjunto parecido de alterações no corpo.
A nota, intitulada em inglês "Uma síndrome produzida por diversos agentes nocivos", descrevia essa reação comum. O ponto central era que os sintomas não dependiam da natureza do agente agressor. Eles representavam uma resposta ao dano em si, uma espécie de reação geral do organismo à ameaça.
A síndrome geral de adaptação
A partir dessas observações, Selye propôs o que chamou de síndrome geral de adaptação, organizada em três fases:
- Alarme. O organismo percebe a ameaça e mobiliza recursos rapidamente, com liberação de hormônios que preparam o corpo para reagir.
- Resistência. Se o estímulo continua, o corpo se ajusta e tenta manter o funcionamento, mas à custa de energia e de sistemas sobrecarregados.
- Exaustão. Quando a pressão se prolonga demais, as reservas se esgotam e surgem danos, com maior vulnerabilidade a doenças.
Curiosamente, a palavra estresse não aparece no artigo de 1936. Selye passou a usá-la com mais frequência nos anos seguintes, emprestando o termo da física e da engenharia, onde designava a tensão aplicada a um material. Ao longo das décadas, publicou livros e centenas de artigos sobre o tema e ajudou a popularizá-lo fora da academia.
Ele não partiu do zero. Antes dele, o fisiologista norte-americano Walter Cannon já havia descrito a reação de luta ou fuga e estudado como o corpo busca manter o equilíbrio interno. A contribuição de Selye foi mostrar que existia uma resposta geral e duradoura a agressões variadas, e que ela podia, com o tempo, adoecer o próprio organismo.
Do laboratório ao dia a dia
Nas décadas seguintes, o conceito atravessou as fronteiras da fisiologia. A psicologia passou a estudar como a interpretação que cada pessoa faz de uma situação influencia a reação: o mesmo prazo apertado pode ser desafio estimulante para um e ameaça paralisante para outro. A medicina do trabalho incorporou o termo para falar de jornadas, metas e ambientes. E a palavra chegou às conversas cotidianas, às vezes usada para qualquer incômodo.
O próprio Selye diferenciava formas de estresse. Parte da ativação é útil: é ela que ajuda a estudar para a prova ou a reagir diante de um perigo. O problema está na intensidade e, sobretudo, na duração.
O que se entende por estresse crônico
A ciência atual reconhece que a resposta ao estresse é essencial à sobrevivência. Ela envolve o sistema nervoso e hormônios como a adrenalina e o cortisol, que aceleram o coração, liberam energia e aguçam a atenção. Quando a ameaça passa, o corpo volta ao estado de repouso.
O estresse crônico acontece quando esse retorno não vem. Pressões contínuas no trabalho, dificuldades financeiras, conflitos familiares, cuidado prolongado de alguém doente ou a exposição à violência mantêm o organismo em alerta por semanas ou meses. Os sinais mais comuns incluem:
- cansaço que não melhora com descanso;
- sono irregular ou pouco reparador;
- irritação, dificuldade de concentração e esquecimentos;
- tensão muscular, dores de cabeça e desconfortos digestivos;
- mudanças no apetite e maior consumo de álcool, cafeína ou açúcar.
A permanência nesse estado está associada a maior risco de problemas cardiovasculares, alterações do sono, ansiedade e depressão. Por isso, lidar com o estresse não é apenas questão de força de vontade: envolve ajustar condições de vida e trabalho, cultivar pausas, sono e vínculos e, quando os sinais persistem, procurar avaliação profissional.
Dúvidas frequentes
Quem criou o conceito de estresse? O médico Hans Selye é considerado o pai do conceito moderno. Seu artigo publicado na Nature em 4 de julho de 1936 descreveu a reação geral do organismo a diferentes agressões.
Todo estresse faz mal? Não. Uma ativação moderada e passageira ajuda a enfrentar desafios. O problema é o estresse intenso ou prolongado, sem tempo de recuperação.
Estresse crônico é doença? Não é um diagnóstico em si, mas é um fator de risco para vários problemas de saúde física e mental. Sinais persistentes merecem avaliação.